Por Vinícius Puhl, Diretor da Technical Partner

O resultado das urnas
Em 25 de outubro de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de 4,43 milhões de votos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Foi a primeira vez desde a redemocratização que um candidato derrotado no primeiro turno reverteu o resultado no segundo.
O resultado encerra uma disputa entre dois projetos de país. De um lado, a retomada do Estado como coordenador do desenvolvimento, com política industrial, investimento público e inserção internacional soberana. De outro, a promessa de desmonte dessas capacidades em nome de um mercado que, no Brasil, nunca dispensou o Estado quando lhe foi conveniente.
Para a indústria nacional, a decisão do eleitorado tem consequência direta: garante continuidade e horizonte de planejamento a uma agenda que exige prazos longos para produzir resultados, como o mercado de óleo e gás, a indústria naval ou os projetos de infraestrutura.
A atualidade de Furtado e Conceição Tavares
Celso Furtado demonstrou que o subdesenvolvimento não é uma etapa a ser superada espontaneamente, mas uma condição estrutural, reproduzida pela posição periférica do país na divisão internacional do trabalho. Sua conclusão permanece válida: sem decisão política, planejamento e centros internos de decisão, o Brasil tende a especializar-se na exportação de bens primários e na importação de tecnologia. Em Brasil: a construção interrompida, de 1992, Furtado alertava para o risco de abandono do projeto nacional diante da agenda de liberalização.
Maria da Conceição Tavares analisou o processo de substituição de importações e seus limites, e mostrou como a financeirização subordina o capital produtivo à lógica rentista. Sua obra evidencia que a indústria não se sustenta sem crédito de longo prazo, coordenação estatal e um sistema financeiro orientado ao investimento, e não à especulação.
Ambos sustentaram que desenvolvimento é escolha política. A eleição de 2026 reafirma essa escolha.
Um ambiente favorável ao desenvolvimento
A reeleição de Lula consolida um ambiente favorável ao investimento produtivo: ampliação da democracia, desenvolvimento regional como prioridade, reindustrialização e neoindustrialização como política de Estado, e um Brasil que se relaciona com o Mundo a partir de seus próprios interesses.
A neoindustrialização não significa reproduzir o parque fabril do século passado. Significa articular a base industrial existente a novas fronteiras: transição energética, hidrogênio verde, complexo da saúde, defesa, bioeconomia e transformação digital. Os instrumentos já estão disponíveis — FINEP, BNDES, Lei do Bem, compras públicas e fundos setoriais — e passam a operar com previsibilidade de mais quatro anos.
O desenvolvimento regional é parte central dessa agenda. A desconcentração do investimento reduz desigualdades históricas e amplia o mercado interno, condição que Furtado considerava indispensável para um crescimento sustentado.
No plano externo, a atuação do Brasil no BRICS, a relação com a China, a integração sul-americana e o diálogo com os mercados tradicionais formam uma inserção internacional diversificada. Essa diversificação amplia o acesso a capital, tecnologia e mercados, e reduz a vulnerabilidade a pressões unilaterais.
O projeto derrotado
A derrota do bolsonarismo afasta um liberalismo hipócrita e tosco, que prega o Estado mínimo para a produção e o Estado máximo para seus aliados, e que conduziria o Brasil ao mesmo caminho da Argentina: crise, desindustrialização e recessão.
O caso argentino é ilustrativo. Segundo levantamento da Fundar, 31,3 mil empresas encerraram atividades entre novembro de 2023 e junho de 2026, o equivalente a 6,1% das companhias registradas no país. O desemprego atingiu 7,9% no primeiro semestre de 2026, de acordo com o Indec. A indústria acumulou retração de 2,6% em doze meses e a atividade econômica recuou 1,74% em agosto, na comparação anual, levando analistas a discutir o risco de recessão.
A redução da inflação, apresentada como principal resultado daquele modelo, foi obtida às custas do tecido produtivo, do emprego formal e da renda das famílias. É esse o custo que o eleitorado brasileiro decidiu não pagar.
O papel da indústria
A indústria de transformação é o setor que mais difunde tecnologia, eleva a produtividade e gera empregos qualificados. Por isso, a evolução de sua participação no PIB é uma medida da própria capacidade de desenvolvimento do país. Desde meados dos anos 1980, essa participação recuou de forma contínua, enquanto a pauta exportadora se concentrou em bens primários.
Os números recentes mostram que a reversão é possível, mas não automática. A indústria de transformação cresceu 3,9% em 2024. Em 2025, recuou 0,2%, pressionada por juros no patamar mais alto em quase duas décadas e pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos. No mesmo ano, o PIB avançou 2,3%, sustentado pela agropecuária e pela indústria extrativa.
Ampliar o peso da indústria no PIB é condição para um crescimento sustentado, pois o crescimento sem transformação da estrutura produtiva não se converte em desenvolvimento. Como demonstrou Conceição Tavares, a indústria não se expande sem crédito de longo prazo e custo de capital compatível com o investimento. O novo mandato de Lula seguirá a articulação entre política industrial, política monetária, financiamento público, compras governamentais e inovação em uma mesma direção.
O compromisso da Technical Partner
Desde 2008, a Technical Partner atua na estruturação de projetos de inovação e na mobilização de recursos para a indústria. Em uma nova fase, ampliamos a demanda por projetos tecnicamente consistentes, capazes de acessar esses instrumentos e de converter política pública em investimento efetivo.
A Technical Partner colabora com um projeto nacional de desenvolvimento. Isso significa apoiar indústrias, centros de pesquisa e instituições na reconstrução da base produtiva, estimular projetos fora dos grandes centros e ampliar a cooperação internacional, inclusive com os parceiros do BRICS. O projeto nacional, como ensinaram Furtado e Conceição Tavares, não se realiza apenas por decisão de governo: depende de capacidade de execução, mobilização da sociedade e rumo. Foram esses os grandes fatos destas eleições: a reafirmação da democracia, a disputa sobre os destinos do país e a escolha de um projeto de desenvolvimento com soberania, inclusão social e esperança. A reeleição de Lula representa, assim, não um ponto de chegada, mas um novo compromisso com o futuro. Porque um país não se transforma apenas pela vontade de quem governa, mas pela força de um povo que decide não abrir mão do direito de construir a própria história.
Vinícius Puhl de Souza (49) é diretor da Technical Partner e vice-presidente da Agência Brasil China. Jornalista e geógrafo, pós-graduado pela Escola de Educação Executiva da FGV.

