Indústria, poder econômico e soberania: o que China, EUA e Brasil revelam pelos seus PIBs

A China ancora mais de um terço de sua economia na Indústria, os Estados Unidos tenta preservar uma base manufatureira estratégica e o Brasil persiste em retormar a industrialização com fortes investimentos. Os percentuais do PIB mostram que a disputa pelo desenvolvimento passa, inevitavelmente, pela capacidade de produzir, transformar e inovar.

Por Vinícius Puhl

Há um dado que ajuda a compreender, de forma quase imediata, o estágio de desenvolvimento de uma nação: o peso da indústria — especialmente da manufatura — em sua economia. Não se trata de saudosismo industrial, mas de economia política concreta. Países que produzem, transformam e dominam cadeias industriais complexas são, historicamente, os que sustentam maior renda, inovação tecnológica e soberania econômica.

Há um indicador simples, mas profundamente revelador, sobre o lugar que cada país ocupa na economia global: a participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB). A comparação entre China, Estados Unidos e Brasil expõe, de forma objetiva, diferentes estratégias — e diferentes resultados.

A China mantém cerca de 36% do seu PIB sustentado pela indústria. Os Estados Unidos, mesmo sendo uma economia fortemente orientada a serviços, preservam algo em torno de 17%. O Brasil, por sua vez, oscila entre 21% e 25%, mas com um dado alarmante: a manufatura responde por apenas cerca de 10% do PIB.

A média mundial de participação da indústria no PIB gira em torno de 26%, segundo dados do Banco Mundial. A China, mesmo avançando no setor de serviços e no consumo interno, jamais abriu mão de sua base industrial. Ao contrário: sofisticou-a, integrou-a à tecnologia e à inovação e a utilizou como alavanca geopolítica e econômica.

Os Estados Unidos seguem outro caminho, mas com o mesmo entendimento estratégico. Embora os serviços dominem o PIB, a manufatura americana é altamente intensiva em tecnologia, produtividade e valor agregado. Não por acaso, o país vem promovendo uma reindustrialização seletiva, focada em setores-chave como semicondutores, energia, defesa e inteligência artificial.

O Brasil está no caminho certo ao fortalecer o coração da sua indústria e retomar uma estratégia consistente de reindustrialização e neoindustrialização. São poucos os lugares do mundo onde se encontram empresas do porte e da capacidade tecnológica de Petrobras, WEG, Embraer e Vale. A elas somam-se gigantes como a Gerdau e a Suzano, que competem globalmente, investem em inovação e demonstram a capacidade industrial instalada no país. Esse conjunto revela que temos base tecnológica, escala produtiva e liderança empresarial suficientes para sustentar um novo ciclo de expansão industrial.

Reindustrializar o Brasil não é uma escolha ideológica. É uma necessidade econômica, social e estratégica. O avanço é uma questão de tempo e coordenação, com políticas públicas bem orientadas, integração entre Estado e setor privado e foco em tecnologia, transição energética e agregação de valor, o Brasil tem condições de ampliar cadeias produtivas, internalizar etapas mais sofisticadas da produção e gerar empregos qualificados. A densidade industrial já existente mostra que não partimos do zero — partimos de campeões globais que podem ancorar um projeto nacional robusto, moderno e competitivo.

A experiência internacional é clara. Não há país de alta renda sem uma base industrial sólida. Não há transição energética, transformação digital ou soberania tecnológica sem indústria. E não há desenvolvimento sustentado baseado apenas em serviços de baixa produtividade ou na exportação de recursos naturais.

Os números do PIB não mentem. Eles apenas revelam, com frieza, quem decidiu produzir o futuro.

#Adiante

Vinícius Puhl é industrial e diretor da Technical Partner

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