Defesa Cibernética é uma questão de soberania. Governos, tribunais e estatais operam hoje em redes digitais que concentram decisões estratégicas, dados sensíveis e ativos bilionários. Proteger essas estruturas é garantir autonomia, estabilidade institucional e segurança nacional em um cenário global cada vez mais orientado por informação e tecnologia.
Por Vinícius Puhl
Soberania, no século XXI, começa pelo controle da própria informação
O Brasil tem um talento curioso: trata segurança cibernética como se fosse antivírus de computador doméstico — algo que se instala depois do problema. Quando diálogos internos de altas autoridades vêm a público, não estamos diante de mera fofoca política. Estamos diante de um alerta estratégico.
Foi o que ocorreu na reportagem da CNN Brasil intitulada “Leia diálogos dos ministros em reunião que afastou Toffoli, segundo site”, que expôs trechos de conversas atribuídas a ministros do Supremo Tribunal Federal sobre a decisão que afastou o ministro Dias Toffoli da relatoria de um caso sensível. Independentemente do mérito jurídico, o fato central é outro: reuniões reservadas da mais alta Corte do país apareceram em um portal de notícias. Isso não é trivial. Isso é sintoma.
Vazamentos desse porte não são apenas constrangimentos institucionais. São brechas estratégicas. Expõem métodos, fragilizam decisões e sinalizam ao mundo — inclusive a governos e corporações estrangeiras — que nossos sistemas não são exatamente uma fortaleza digital.
Enquanto isso, autoridades de todos os níveis seguem tratando temas relevantes pelo WhatsApp, aplicativo pertencente à Meta Platforms, Inc., empresa privada norte-americana submetida à legislação de outra jurisdição. A criptografia pode existir, mas a governança não é brasileira. Não é estatal. Não é soberana.
O paradoxo se amplia quando lembramos que setores estratégicos movimentam contratos bilionários com multinacionais estrangeiras — como ocorre em parcerias envolvendo a Petrobras. Informação estratégica circula em um ecossistema digital que o Brasil não controla integralmente.
Não se trata de demonizar tecnologia ou empresas. Trata-se de maturidade institucional. Segurança cibernética é infraestrutura crítica. Um país que não protege suas comunicações estratégicas não está apenas vulnerável a vazamentos — está vulnerável a pressões.
Vinícius Puhl é Diretor da Technical Partner

